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Archive for outubro \26\UTC 2009

Sentença

Cicatriz será sempre sinônimo de algo profundamente doloroso, representando – para quem a carrega – a marca de uma agressão física e emocional. O tempo, em geral, mostra às vítimas que tal sinal desenhado na pele tem o seu outro lado: a superação. Assim encaro a risca de 18 cm que divide o meu abdômen.

Impossível afirmar que me orgulho dela, até porque me remete a um dos piores tormentos enfrentados por mim no difícil agosto de 1998. Os exames apontaram câncer de ovário e o médico que me diagnosticou foi frio e verdadeiro: “você está com câncer”.

Aos 23 anos eu tive bastante dificuldade em compreender e assimilar aquelas informações. Dr. Marcio me tranqüilizava dizendo que se eu fosse precisar de quimioterapia, eu não deveria encarar aquilo como um bicho de sete cabeças. Deveria eu perguntar “quanto tempo de vida eu tenho?”. O que ele queria dizer com quimioterapia? Que provação era aquela e como encará-la eram alguns dos meus questionamentos.

O câncer de ovário é considerado o tumor mais letal a atingir as mulheres e tem fama de matar silenciosamente. Confusa, aterrorizada e torcendo por opiniões diferentes, procurei cinco especialistas. Todos diziam que operar era urgente e preciso. Por causa dos milhões de pontos internos, eu não pude rir, levantar sozinha, nem falar alto durante algumas semanas. Imagina o que isso significa para alguém que fala, ri e não para quieta um segundo? Todo o movimento realizado era quase uma aula de tai chi chuan, tudo muito devagar, controlando respiração, andar etc.

Apesar da biopsia, de discutir com Deus, apesar do corte, da peça retirada medindo cerca de 20cm de diâmetro, apesar da remoção de um ovário e de uma trompa, apesar do medo e das incertezas, eu não pude deixar de reconhecer que alguém lá em cima gostava bastante de mim. Eu tinha tido uma segunda chance. 

Onze anos depois fica fácil contar a história, até porque muitas das questões (científicas, claro) já foram respondidas. Difícil é vestir um biquíni ou afirmar que eu me acostumei com tal marca. Não gosto de vê-la, embora eu saiba que o que havia antes dela era pior. Por isso prefiro da forma que está: caso enfrentado, superado e curado. Por ser um tumor do tipo boderline, a malignidade existe e é constatada, mas é baixa.

Não só sobrevivi sem a necessidade de quimioterapia, como pude ter a certeza de que somos capazes de enfrentar aquilo que julgamos ser o pior. Claro que cada um tem o seu segredo. O meu? Família, fé, amigos, sorte e a mãozinha de alguém lá de cima. Você já teve uma segunda chance?

Há dois anos participei de uma matéria sobre câncer de ovário publicada na revista Claudia. Vale a pena conferir e ficar atenta aos sintomas. Para acessar clique aqui

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Made in Sergipe

O bom em mudar de área profissional traz não só as descobertas do mundo completamente novo como certos benefícios. No meu caso, cultural. Em pouquíssimo tempo já fui à peça do Fagundes, ao show da Maria Rita, à pré-estreias de ótimos filmes, como a do “Salve Geral”, e já trabalhei com os galãs de algumas novelas das oito. Um deles trocou a maior ideia comigo sobre a minha tatoo (Are Baba!) e o outro me fez ter pensamentos sujos por conta de uma conversa sobre beijo técnico.    

Teve gente que apostou que eu estaria arranhando a minha carreira, mas teve muita gente que não só me encorajou, como vibrou e torceu pelo meu sucesso. Como estou há apenas pouco mais de 40 dias, tudo ainda é muito legal, engraçado, divertido e extremamente rico. Estou tendo aulas deliciosas sobre a sétima arte e a importância dos festivais e das mostras de cinema, graças à Fabiana, garota que conheci há quase oito anos. 

Olho-a atualmente e vejo o trator que ela se transformou. Aquela rapariga-sergipana-de-fala-rápida que conheci lá trás continua a mesma e ao mesmo tempo mudou tanto! Está repaginada, segura, independente e mais apaixonada pela vida. Contagia tanto que às vezes perdemos o fôlego. De rir, de chorar e de rir e chorar ao mesmo tempo. 

Fomos uma dupla-guerreira durante três anos em um lugar que estava mais para inferno do que para uma agência. A responsável por isso era uma carioca que desestruturou a italiana aqui e a mocinha made in Sergipe.  Mas uma coisa é certa: a louca do Rio de Janeiro nos uniu. Depois de um café numa livraria recheado de conversas densas e perturbadas a gente nunca mais se largou e desde então somos irmãs. 

No dia 10 de setembro eu postei um texto aqui sobre o meu amigo Bil e essa moça quase me matou! Me ligou na hora blasfemando: morte ao Bil! Morte ao Bil!!!

Doida essa daí! E eu que não sou abestada resolvi escrever esse texto antes que ela sacasse a peixeira!

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Fabi, eu e Camis (outra doida-guerreira – encontrada sob os escombros dos atentados terroristas da carioca-louca – que vai me xingar dizendo que eu ainda não escrevi nada sobre nossa amizade, principalmente porque é leitora e comentarista assídua deste blog. Amiguinha, amo-te também!)

 

fabi pe e camis

P.S. A maioria dos amigos da Fabi se chocou com o termo “rapariga”. Não é de se estranhar, afinal o termo por mim usado – na maior ingenuidade – tem um significado pra lá de pejorativo. Algo como “mulher da vida”. Juro, juro que eu imaginava que o termo era algo como guria é em Porto Alegre, ragazza é na Itália e rapariga é em Portugal. Eu tenho prova de que muita gente quis me matar. Amigos dela escreveram falando em jagunços do sertão e “a peixeira vai rolar”. Medoooooo. Será que eles acreditariam que a minha intenção foi a melhor das melhores?

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Eu sempre cultivei um carinho especial pelo mês de outubro. Quando criança, por motivos óbvios, eu esperava ansiosamente pelo dia 12. Esta data era especial e os meus pais a tornavam mais especial ainda, fazendo com que eu e os meus irmãos a valorizasse verdadeiramente. Claro que eles podiam nos dar certos presentes a qualquer momento. Mas, espertos, diziam que ganharíamos certos regalos se fôssemos bons alunos na escola e se também fôssemos obedientes. Era a regra básica. Dessa forma, crescemos entendendo que as coisas não caem do céu, que há momento certo para tudo e que tínhamos de merecer.

Um dos presentes de que mais gostei foi um carrinho de supermercado vermelho, com rodas amarelas. Lembro que coloquei o urso da Avon na cadeirinha do carrinho e fiquei andando com ele pra cima e pra baixo, pegando latas de azeite e macarrão do armário da cozinha, fingindo ser uma dona de casa perfeita. Não tenho a menor idéia de quantos anos eu tinha, mas eu jamais esqueci. O macarrã continua fazendo parte da lista de compras, grazie a Dio! 

É também em outubro que se comemora o Dia de São Cosme e Damião. E é nesta data que a Casé envia um mimo para os Very Important People, e eu –  rá! – estou nesse mailing VIP, minha gente! Desculpem, mas a criança mimada e metida que sou não podia deixar de se deslumbrar com tal fato.  Dois cupcakes estupidamente deliciosos, feitos pelo chef francês Nicolas Saretto, estavam acondicionados em uma embalagem incrivelmente linda, que obviamente guardei com carinho.

Mas é em outubro que eu também comemoro uma das datas mais significativas: o meu casamento. Segundo Fernanda Guerra, uma das minhas amigas mais queridas, tal evento foi algo tipicamente Almodóvar. Primeiro porque ocorreu duas vezes e com a mesma pessoa: uma no civil e outra, dois anos mais tarde, na igreja. O fato é que, depois da cerimônia religiosa, comemoramos o evento no Grazie a Dio. Vamos combinar, pessoal, que não é todo dia que se vê alguém chegando em um barzinho vestida de noiva e trocando tal traje por outro mais casual em um banheiro minúsculo. Sem contar que, todos – sem exceção – disseram que foi o noivo que roubou a cena (e roubou mesmo, emocionando todo mundo). Sem contar que, ao contrário de muitas noivas que entram com os olhos marejados ou chorando, eu entrei rachando o bico, tamanha era a minha felicidade.

Sem contar que eu esqueci de ir à manicure, sem contar que o moço que filmou não conseguiu dar nenhum close no casal, porque a noiva mede menos de 1 metro e meio e o noivo tem 1 metro e 90, sem contar que o buffet que havíamos contratado faliu antes do evento acontecer, e sem contar que…bom, é uma lista imensa. Almodóvar, favor entrar em contato comigo. Eu conto tudo, com detalhes, para a sua próxima produção.

Eu pretendo me casar de novo com a mesma pessoa. Tá, eu sei, é renovação de votos. Seja o que for. Dessa vez, quero a festa que a gente não teve, com direito a chuva de papel e aqueles clipes que contam a história do casal por meio de fotos. Bom melhor não, porque contar 11 anos vai tomar um certo tempo da festa…tá, prometo fazer um clipe bem bacana de cinco minutos. Vou pedir o meu marido em casamento e já volto. Se ele disser que prefere um churrasco, eu arrebento a cara dele e arrumo outro marido!

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Não deu mesmo para fazer um close do casal…

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A embalagem dos cupcakes não é linda?

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O modo de ver e viver

Ela quis fazer com que você soubesse de tudo naquele curtíssimo tempo que tinham. Quis contar e ouvir todas as suas histórias. Ao menos, muita coisa. Era quase um desespero para se fazer conhecer e te conhecer. Era um desespero de querer recuperar todos aqueles anos que  distanciaram ela de você e vice e versa. 

Aí quando ela se deu conta do que sentia, preferiu não dizer, porque já tinha desembestado a falar tanta coisa que achou que você iria pensar que aquela seria apenas uma frase momentânea, solta, tola. Não era.  Tola foi ela que não falou, porque se iludiu acreditando que haveria o momento certo. 

Mas o momento era aquele. Ela, mais uma vez, esperou e perdeu. Assim como havia feito anos antes. O momento passou. Foi isso que aconteceu. Vocês deixaram passar todos os momentos. Por razões diversas e tolas. 

Hoje, apenas um desses personagens foi, ou parece estar, bem determinado a não esperar por nenhum momento. Para ele, o momento passou e a história foi resumida a uma passagem desastrosa. Pena.

Hoje, se para ela nada disso passou , se a história é resumida de uma forma completamente diferente da versão dele, ou ainda,  se ela sente ou vive da forma que vive só há uma explicação. Explicação dada pelo personagem de Woody Allen em “Crimes e Pecados” que diz: “Somos a soma das nossas decisões”. 

Plagiando o moço da TV, Pedro Bial, a gente é o que a gente escolhe ser, o destino pouco tem a ver com isso.

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Joga pedra na Geni!

A primeira cólica renal que tive foi há mais de dez anos e foi, assim como o primeiro soutien, algo inesquecível. Pra começar, eu demorei a entender que certos sinais eram os sintomas de uma cólica renal. Primeiro achei que fosse cólica menstrual, depois eu tive ânsia e depois, indo em direção à Rebouças, eu virei a letra “U”.

Lá mesmo, na calçada, não havia sujeito algum que me endireitasse ou conseguisse me carregar. Eu achei que estivesse tendo um ataque epilético, mas a minha língua tava lá, na dela, tranquilinha. Mas aí, com as fortes pontadas, tive a certeza de que alguém espetava agulhas bem na região do rim em um bonequinho de pano. Eu tinha certeza que era vodú, coisa ruim! Até chegar no hospital e descobrir o que estava acontecendo, eu sofri paca.

De lá pra cá, eu devo ter tido umas seis ou sete crises como esta. Duas delas tive que sair do meu apartamento engatinhando até o elevador. Não quero nem saber o que o porteiro deve ter achado ao me ver, pelo circuito interno , de quatro e gemendo. Teria ele idéia de que aquilo estava longe de ser uma cena erótica?

A última cólica foi em junho. Foi a pior de todas por vários motivos: eu não estava em São Paulo, logo o hospital da cidade minúscula era um posto de saúde; e demoraram para me atender – mesmo a minha pressão indo abaixo de zero e a minha cor oscilando entre o verde e o azul pastel. A culpada disso tudo foi uma “pequena” pedra de 1 cm, que me fez urrar como um animal. A tal pedra, situada no canal, foi expelida de forma natural com muito sofrimento e antibióticos (que me ferraram a pele).

Os exames apontaram mais seis pedras localizadas no outro rim que, segundo o médico, podem se manifestar a qualquer momento. Hoje, a Lucélia – minha terapeuta e o meu norte nesta vida – revelou que o rim é o órgão do nosso corpo onde são acumuladas as tristezas e as questões mal resolvidas. As pedras são os obstáculos a serem vencidos. Portanto, há seis assuntos para eu resolver. Drummond foi sortudo. Tinha apenas uma pedra no meio de seu caminho. Duvido que um homem denso como ele tinha apenas uma questão mal resolvida, humpft!

Eu espero resolver isso tudo antes que eu vire um outro “U” ou fique de quatro novamente no elevador. Espero expelir certos obstáculos de forma natural e rápida, de preferência. Mas a Lucélia, do jeito que é vai me colocar no lugar rapidinho com as suas broncas, seus conselhos e os seus florais mágicos!

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
 

Carlos Drummond de Andrade

 

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