Feeds:
Posts
Comentários

Segredo

Eu quero ser o segredo, o seu melhor segredo, porque segredo se guarda pra sempre como  um tesouro mais que valioso, porque é baseado na confiança, um dos melhores valores que há nessa vida.

Quero ser o seu segredo, porque um segredo se conta apenas a pessoas que a gente ama. Ao confidenciar um segredo percebe-se troca, generosidade, luminosidade, proximidade, amor.

Eu quero ser o seu segredo porque segredos nunca são pequenos, mesquinhos ou sem importância. Ter um segredo é cuidar para que não haja quebra, vulnerabilidade nem fragilidade. Segredos não podem ficar à mercê do vento, espalhados por aí, não pode sofrer abalos ou ruídos.  

Quero ser seu segredo porque para revelar um segredo é preciso grandeza e coragem para verbalizá-lo e para vivê-lo.

Quero ser o seu segredo mais secreto porque poucos têm a permissão de sabê-lo, de sê-lo ou de fazer parte. Segredos sempre estão envolvidos por um cuidado especial e sempre farão parte de algo muito, muito particular, perene, único, quase intocável.

Confiar um segredo é criar laços verdadeiros, é dividir o valioso à pessoa mais valiosa, é se aliviar de algo que precisa ser verbalizado, é se assumir, é ficar nu sem medo, é deixar o outro fazer parte de verdade, é se expor tendo a certeza de que a reação será o afeto.

Eu quero ser o seu segredo. O melhor deles.

Anúncios

Querer

Eu quero ir ao cinema , ficar de mãos dadas com vc e encostar a minha cabeça no seu ombro. Quero roubar um pouco da sua pipoca, roubar uma gargalhada sua, roubar um beijo seu e o seu coração, já que vc roubou o meu.

Quero dançar várias músicas abraçada a vc. Se nenhuma tocar, podemos fingir que estamos ouvindo. Eu quero dormir e acordar ao seu lado, atravessar uma madrugada conversando com vc sobre tudo e sobre nada, perder tempo com vc, parar as horas, enganar o relógio e esquecer que ponteiros existem.  

Quero delirar ao seu lado, caçar borboletas, tocar campainha e sair correndo, gritar no trem fantasma, ensaboar o chão para escorregar de propósito, ter um ataque de riso, perder o fôlego e os sentidos.  Quero conhecer a sua história de trás pra frente, saber de suas férias na casa da avó, dos tombos e das molecagens e dos lugares que visitamos no mesmo dia, na mesma hora sem nos dar conta de que ali o destino brincava com os nossos caminhos.

Quero andar ao seu lado num parque com os pés descalços, tomar sorvete em um dia quente e chocolate quente em dias frios. Quero ver o pôr do sol, a lua cheia e as cores do outono. Quero brincar na chuva e fazer manha se eu me resfriar, ler ao seu lado, pegar uma estrada com você, subir em algum lugar alto, sentir o vento de braços abertos e ouvir o eco da montanha.

Quero te surpreender, marcar um encontro e te ver por acaso. Quero ganhar um carinho, fazer cafuné e relaxar no seu abraço. Antes de botar os meus olhos em você, quero colocar um vestido bonito, uma fita graciosa na cabeça e enfeitar o meu rosto com um sorriso.

Quero te contar segredos e histórias, quero voar com você, mergulhar, planejar, construir, sonhar e  desenhar o que vier à cabeça. Quero ser a sua eterna namorada, a sua melhor amiga, a sua confidente, a sua amante, a sua mulher e a sua poesia.

Outro dia ela se pressionou a responder o que faria se a vida os colocasse frente a frente.  Arriscou um palpite, mas ela mesma não se convenceu. Faz tanto tempo e ao mesmo tempo ainda parece ser recente. Já não sabe mais e tampouco quer pensar no assunto tempo. Já não sabe mais como seria sua reação se o encontrasse – como se reações pudessem ser planejadas. Já não sabe mais o que de fato sentiria.

Talvez seja melhor assim. Seguir sem saber e sem mais se perguntar. Melhor ainda, seguir sem esperar. Sente-se livre e não mais prisioneira de uma história que precisa ficar em seu lugar: numa caixa bonita e especial, assim como essa  história construída, escrita, vivida e finalizada.

Caixa com um laço que se desfez e que precisou ser lacrada, dessa vez de uma outra forma. O laço foi desfeito, não num desamarrar comum, mas como se a fita fosse queimada em sua mão e a queimasse, deixando uma cicatriz. Aquela fita desamarrada poderia ser amarrada em laço de novo, mas ela não existe, foi queimada. A fita jamais poderá ser a mesma, apenas para aquela garota, mas a garota há tempos deixou de ser aquela garota. Essa mulher que hoje segue não mais prisioneira traz a essência daquela garota, sim, traz ainda aquela graciosidade, o jeito feliz de viver e de sentir verdadeiramente, se permitindo sempre. Mas hoje ela também carrega uma cicatriz. Cicatriz de uma ferida curada pelas surpresas generosas dessa vida.

A caixa está lacrada, é verdade, mas não impossível de se abrir. Mas não há razão para querer mexer. Certas coisas devem ser simplesmente  guardadas. Acredito que assim, o tesouro não perde o valor nem o seu encanto. Talvez o melhor mesmo seja deixá-la fechada, para não arriscar e para que a tal não se transforme na temida caixa de Pandora.

Clarice Lispector, ao entrevistar Rubem Braga, escreveu: “Há mil Rubens dentro de Rubem Braga, assim como há mil clarices em mim”. Eu sou mil Paolas porque há milhares de mim dentro de mim. Muitos acham que sou divertida, outros acham sou formal. Há quem ache que sou fascinante e charmosa. Alguns me acham sofisticada, outros dizem que sou alternativa. Já ouvi que tenho cara de rica, jeito de quem mora em um endereço que comece com Alameda. Há quem me admire e/ou ache incrível alguma história minha.

Na maioria das vezes não me aborreço com tais achismos. Só não gosto da expectativa que criam a partir de uma única imagem que fazem de mim. Para quem me acha muito divertida, aqui vai o meu recado: nem sempre sou divertida, nem sempre estou a fim de contar histórias incrivelmente engraçadas. Portanto, não se decepcione. Melhor, não me amole, porque também tenho o meu lado azedo. E para quem me acha pavio curto, eu não sou só isso. Há outras Paolas legais, que seguram a onda ou que aprenderam a contar até 75 para se calar. Alameda o que? Ha ha ha pra você! Não, estou um pouquinho longe desse endereço aí, mas o meu traz a palavra alegre e o edifício foi batizado por algo felicitá. Não há muito espaço, mas convivo bem aqui. Há plantas na sacada e também casinhas de passarinhos penduradas na parede. Rica? Estou longíssimo desse conforto financeiro, mas tenho consciência de que dinheiro algum poderia comprar os meus tesouros. Da mesma forma que, se eu os perder, não há terras, pessoas influentes ou poder no mundo que os recupere.

Me aborreço quando ficam incrédulas ao me ouvir dizendo: não, não sei. Não, não conheço. Poxa, me desculpe se isso te faz pensar que sou burra ou se isso me diminui. Ao invés de me humilhar, essas pessoas poderiam apenas compartilhar tais conhecimentos, que podem ou não me interessar. Ou melhor, poderiam respeitar, sem me julgar. Leio bastante livro, clássicos e também de autores respeitados. Amo crônicas, amo as de Clarice, as de Rubem Braga, as de Xico Sá, as de Martha Medeiros, as de Mario Prata e as de tantos outros. “A viajante”, de Rubem Braga, é uma das melhores crônicas em minha opinião. Mas porque não posso dizer que gostei também do livro sobre a Beck Bloom? Ou por que não posso dizer que adoro assistir “mensagem pra você”, com o Tom Hanks? Quando digo que não consigo ouvir Chico Buarque, sou rechaçada. ALGUÉM QUER OUVIR A RAZÃO, POR FAVOR? Mas amo suas letras e suas canções quando são interpretadas por Zizi Possi, por exemplo. E no momento estou lendo o seu Budapeste, que me prende de um jeito bom e não como o seu “estorvo”. Aquele eu li e troquei no sebo, de tão pesado. Decepcionados, não é?

Sou também essa Paola que não consegue terminar esse texto, que parece ter perdido o fio da meada e que não quer deixar como parágrafo final esse sobre o que a aborrece. Vai parecer um recado, vai parecer que estou chateada com determinada pessoa e não é nada disso. É só um texto de uma dessas mil Paolas que sou.

2020

Alguém disse que me visitou no futuro. Não pôde ver muito, mas me viu rindo das bobagens típicas de uma certa atmosfera que move e revoluciona os meus dias atuais. Fiquei curiosa e feliz. Embora a pessoa não tenha visto tanto, eu gostei MUITO de saber que em 2020 ainda existe a tal atmosfera .

Quero e torço muito para que a Paola Del Monaco que me tornarei daqui a dez anos esteja se sentindo tão completa como a de hoje, mas bem menos ansiosa. Bem menos.

Tomara que ela continue se permitindo a viver sem se enganar e que ela não esqueça de sua essência, dos seus sonhos e de alguns momentos que a despertaram. Espero que ela continue absorvendo elementos fundamentais para se transformar em novas e em outras Paolas. Que ela continue rodeada por pessoas que tenham a ver com ela e que também não tenham nada a ver. Espero que ela continue quebrando algumas regras tão hipócritas e que distorça valores, conceitos e lições que possam impedí-la de fazer algo. Gostaria muito que ela falasse italiano fluentemente e desse aulas. Para crianças. Torço para que ela continue se divertindo ao lado do Frango, seja por causa de suas brincadeiras (FBI, rolinho, qual é a música, histórias surreais antes de dormir…) seja por causa de novas bobagens que arrancam gargalhadas e dão mais leveza a essa relação tão singular. Espero que eles tenham tido um filho ou uma filha para com ele/ela ensinar e, principalmente, aprender. Se por um acaso ela estiver triste, espero que ela feche os olhos e visite 2010. Tenho certeza de que ela irá sorrir e irá entender porque é completamente feliz. Há outras épocas para visitar e sei que ela terá discernimento para reviver o que realmente vale a pena.

Uma pergunta para vc que me visitou: eu moro numa casinha simpática habitada também por um cachorro grande e bobo?

Resposta à razão

Há um turbilhão de coisas acontecendo na minha vida. Eu não sei se me sinto em uma montanha russa ou em um trem fantasma. Creio que seja a junção dos dois: um trem fantasma com direito a quedas de 90 graus no escuro, dificultando a vista do meu olhar curioso e desesperador.

Tenho vivido o que desafia certos sentidos dessa vida sem dar a mínima à razão, que saboto e ignoro friamente. Não que eu esteja me isentando das responsabilidades. Estou apenas me permitindo.  E como todo ser humano que se preze, aceito transitar por certas trilhas percorrendo uma grande região pantanosa que assusta e aflige o meu lado racional. O saldo é o medo, que tira a poesia das cores que o meu coração insiste em usar em suas telas grandes e vivas – e que sua inocência tola pede para exibir. O que eu gostaria que acontecesse simplesmente não vira e o que eu peço com toda a força do meu coração para não acontecer tem uma chance de acontecer. É bem verdade que as chances são mínimas e quase nulas, mas existem. Aí o medo figura como protagonista da história mais tenebrosa que eu sempre quis evitar em viver.

O “e se” se faz presente como se fosse aqueles personagens coadjuvantes precisos e certeiros. Não gosto de incertezas e de certas surpresas que a vida reserva. Não gosto dos “e se” quando me dou conta do pior cenário. Não gosto de me sentir angustiada e cercada por insegurança e ameaças. Mas é assim que me sinto quando a razão toma conta dos meus pensamentos.

Só há três maneiras de me livrar disso tudo: acreditando que o melhor irá acontecer, esperar o tempo passar e ignorar a razão dando mais voz ao coração. Como sou muito impaciente para esperar e muito pessimista para acreditar, vou dar ouvidos ao meu coração.  Ele me arranca do óbvio ao meu redor, me deixa em estado de graça e abre as janelas da minha alma.

Vc tem de estar na vida também para correr risco. Faz parte do saudável desapego consigo mesmo
– Arnaldo Antunes.  Vc diz isso, querido Arnaldo, porque não tem a menor ideia do risco que eu corro.

Tanta gente já passou na minha vida, em tempos diferentes, que muitas delas só ficaram nas lembranças. Os motivos vão desde mudança de bairro à mudança de vida. Pensei nas minhas amigas de colégio, nos amigos da rua, na turma da praia, nos professores que tive, nos colegas da faculdade e nos das agências que trabalhei. E pensei também naqueles que fui perdidamente apaixonada.

Outro dia lembrei dos meninos que chegaram a declarar a paixão que sentiam por mim. Lembrei do Marcinho, do Alex, do Stones, do William e do Tchello. O Marcinho não foi direto, mas falou para o meu irmão, o Alex espalhou para a turma inteira que gostava de mim e depois escreveu um bilhete me pedindo em namoro. O Stones fez poesia, desenhos e o William chegou na chincha. Desses eu gostei do Marcinho e do Tchello, mas só fiquei com o Tchello porque eu e o Marcio tínhamos no máximo dez anos quando “nos apaixonamos” e naquela época os tempos eram beeeeem diferentes. Já o Tchello apareceu quando eu tinha uns 16 anos. Não deu muito certo porque nossas casas ficavam a 20 quilômetros de distância uma da outra e ele, mesmo sendo maior, não tinha carro. Uma pena, porque ele era todo romântico, cantava um monte de música bonita, lia muitos livros e era todo intelectual. Além disso, era “um homem” de 21 anos, com seus 1.80 de altura, tinha barba cerrada, olhos claros e…nossa, era um partidão! Mas vamos combinar que não dá para atravessar a cidade todo o final de semana e ficar só nos beijos. O mocinho não teve a menor paciência.

Um outro que despertou em mim uma paixão mais do que louca foi um moço alto, dessa vez 12 anos mais velho do que eu e que era muito mais do que romântico. Ele era poeta. O problema não foi só a diferença de idade (ele com 31 e eu com 19) nem a ausência de um automóvel. Ele tinha carro, mas morava a mais de 6 mil quilômetros de distância da minha casa. Foi o meu primeiro amor e foi quem despertou muito do que sou ainda. Talvez seja por essa razão que a gente nunca esquece o primeiro amor.

Mas houve outros amores também inesquecíveis. Teve um que eu fui capaz de sentir muito e tanto que eu não sabia o que fazer com. Ele era bem presente e mais tarde passou a me faltar por inteiro. Mesmo assim me preencheu com novos significados.

O que ficou desses amores e dessas paixões foram lembranças tão boas que por esta razão eu gosto de relembrá-las. E o que me deixa realmente feliz é saber que isso tudo também fez parte da minha realidade.  

Hoje o amor responsável por boa parte da minha alegria não é poeta, não é romântico e não é tão mais velho do que eu. Mas é tão único e tão especial que desejo viver até ficarmos bem velhinhos. Ele é o Frango, o marido mais engraçado do mundo, que faz comidinhas deliciosas pra mim, que deixa mais da metade da cama pra mim, que faz da minha rotina a melhor das melhores, que dança comigo na garagem, que imita buzina de caminhão quando passa nos túneis das estradas…enfim, é o Frango. Quem conhece sabe sobre o que e de quem eu estou falando.