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A última carta

Rasgo na alma. Tapa na cara. Destino vão. Espírito despedaçado. Corpo inerte. Mente distante. Olhar apagado. Coração esmigalhado.  Ausência do chão. Invalidez.

A frieza das palavras. A história desconfigurada. O nó na garganta. A praticidade assustadora. O ônus da catástrofe. A deficiência na compreensão. A humilhação.

E for fim, os questionamentos eternos.

Geração doentia

Foi-se o tempo que estudantes revolucionavam a história de um país de uma forma heróica que enchia de orgulho muita gente. Acabo de reler “Anos Rebeldes”, de Gilberto Braga. Estou novamente tomada por toda aquela revolução que modificou a sociedade e desafiou o regime ditatorial implementado em 1964 pelo Golpe Militar. Em 1992 Anos Rebeldes virou minissérie e a minissérie influenciou e inspirou milhares de estudantes a protestar contra Fernando Collor de Melo e a corrupção no país. Surgiram assim os caras-pintadas que marchavam nas ruas, de camiseta preta e rosto pintado de verde e amarelo, gritando “fora Collor e o FMI!”.

Me lembro desse dia. Eu nem sabia o que diabos era o FMI, mas eu e alguns amigos do colégio voamos para a Av. Paulista ávidos por mudanças e a queda do presidente. Eu pesquei tudo no trajeto do ônibus por causa de um garoto que discursava como um líder nato sobre o “tal do FMI”.  A partir daí planejávamos um Diretório Acadêmico, o fim de mídias alienadas e traçávamos a derrubada da elite burguesa capitalista. Segurei com o maior patriotismo do mundo a faixa “Impeachment!” me permitindo bradar contra roubalheiras. Os caras-pintadas viviam a liberdade de expressão, um dos maiores ideais dos estudantes de 1968. O som da manifestação dos caras-pintadas não era os de cascos de cavalos nem os das sirenes que tanto os estudantes de 68 ouviam. O som era a voz de milhares de estudantes cantando Alegria, Alegria, de Caetano Veloso.

Confesso que, ao chegar em casa, eu quis colocar os pés em uma bacia com sal e umas rodelas de pepino no rosto, porque a combinação “sol + guache” havia triturado a minha pele. Também não consegui participar nem da primeira reunião do movimento estudantil, porque não fui capaz de vencer as regras nada democráticas da dona Idalina, que ditava histericamente: “vai estudar e não discuta comigo, porque eu sou sua mãe! Não quero saber de filha minha metida em confusão”. Eu não mudei o mundo nem o sistema educacional marginalizado nem a condição precária do país. O mundo mudou e pra pior, principalmente os estudantes.

O episódio ocorrido na Uniban é algo tão inacreditável que chego a me perguntar com bastante saudosismo, e como se eu tivesse 80 anos de idade, o que aconteceu com a juventude? No dia 22 de outubro, a aluna Geisy de Arruda foi hostilizada por alunos da Uniban por ir à universidade com um vestido vermelho curto. No sábado a Uniban anunciava que a expulsão da aluna teria ocorrido por “desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade”.

Há 20 anos um estudante chinês emocionava o mundo se colocando a frente de um tanque de guerra, durante protesto na Praça da Paz Celestial, desafiando tropas militares. Comemorava-se também a queda do muro de Berlim. Por que, então, em pleno século 21 os jovens fizeram toda aquela manifestação na Uniban? E por que a Uniban tomou a decisão medíocre de expulsar a garota?

Estamos prestes a viver o ano de 2010 e concluo que somos um país democrático hipócrita e que continuamos com conceitos e preconceitos alienados e com aquele conservadorismo vergonhoso. A reação dos estudantes da Uniban foi uma barbárie sem tamanho. Um bando de alunos sádicos, loucos, acéfalos que repudio. Eu queria mudar o mundo, lembra? O movimento estudantil de 68 também. Ninguém conseguiu. A prova está aí, com um bando de animal que ruge por causa de uma saia curta. Geraçãozinha de merda essa. Se dependermos de suas lutas, estamos fodidos. Faço das palavras de Rosana Hermann as minhas:

“…Esses absurdos todos que vemos, esse enaltecimento de pessoas sem noção, essa paixão pelo lixo, essa fúria em massa, essa vontade de destruir, de atacar, de julgar de forma preconceituosa e cruel, são sintomas de uma sociedade doentiamente contraditória e retrógrada que inclui todos nós. …A saia era curta? Era. Mais curta ainda é a tolerância do ser humano.” Para ler o texto dela na íntegra clique aqui.

 

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Duty Free

O texto da Danuza Leão, publicado na revista Claudia deste mês, me fez pensar no quanto algumas pessoas ricas são hipócritas. Nada contra até porque, antes ser hipócrita e rica do que pobre e mentirosa. Afe! Pobreza + mentira é o apocalipse!

Amo os textos da Danuza, mas esse em questão terminou em um tom tão pedante que me deu asco e uma vontade louca de odiá-la. O texto acaba mais ou menos assim: “…ao chegar no free shop, bastam uns óculos escuros novos, uns chocolates suíços e uns creminhos para que volte a reinar a paz no meu coração. Como a vida pode ser simples”. Hãããããã?!

Longe de mim afirmar que eu não adoraria gastar doletas no free shop, me jogar nos chocolates suíços e adquirir óculos novinhos em folha, mas dizer que isso faz com que a paz volte a reinar no meu coração e finalizar com um suspiro dizendo “como a vida pode ser simples” é hipócrita demais. Este é o simples no mundo de quem nasceu em berço de ouro? Pena.

A vida pode ser simples e plenamente bela em uma praia comendo manjubinhas fritas acompanhadas por uma bebida estupidamente gelada, só para dar um exemplo em um dia especialmente quente como o de hoje. Com um calor do capeta, hoje a temperatura chegou perto dos 80 graus aqui em São Paulo. A vida pode ser simples quando encontramos pessoas extremamente queridas, divertidas e com um bom papo. Pode ser simples em casa assistindo a filmes com um balde de pipoca ou com uma barra de chocolate, não necessariamente suíço. Pode ser simples por causa do olhar- doce do seu cachorro bobo ou do olhar-demente que ele faz quando quer que você brinque com ele.

Eu poderia fazer uma lista infinita aqui, mas não é o caso. Também é preciso fazer uma ressalva: o texto da Danuza tem todo um contexto, mas me incomodou demais ela juntar a última frase com a idéia das comprinhas no free shop. Ficou pedante. Esnobe. Raso. Eu, na minha ousadia top, desabafei aqui. Este é o caso. Acho que eu queria só desabafar e dizer que eu iria me ferrar se eu tivesse que perceber que vida pode ser simples por causa de uma passadinha no free shop.

Sentença

Cicatriz será sempre sinônimo de algo profundamente doloroso, representando – para quem a carrega – a marca de uma agressão física e emocional. O tempo, em geral, mostra às vítimas que tal sinal desenhado na pele tem o seu outro lado: a superação. Assim encaro a risca de 18 cm que divide o meu abdômen.

Impossível afirmar que me orgulho dela, até porque me remete a um dos piores tormentos enfrentados por mim no difícil agosto de 1998. Os exames apontaram câncer de ovário e o médico que me diagnosticou foi frio e verdadeiro: “você está com câncer”.

Aos 23 anos eu tive bastante dificuldade em compreender e assimilar aquelas informações. Dr. Marcio me tranqüilizava dizendo que se eu fosse precisar de quimioterapia, eu não deveria encarar aquilo como um bicho de sete cabeças. Deveria eu perguntar “quanto tempo de vida eu tenho?”. O que ele queria dizer com quimioterapia? Que provação era aquela e como encará-la eram alguns dos meus questionamentos.

O câncer de ovário é considerado o tumor mais letal a atingir as mulheres e tem fama de matar silenciosamente. Confusa, aterrorizada e torcendo por opiniões diferentes, procurei cinco especialistas. Todos diziam que operar era urgente e preciso. Por causa dos milhões de pontos internos, eu não pude rir, levantar sozinha, nem falar alto durante algumas semanas. Imagina o que isso significa para alguém que fala, ri e não para quieta um segundo? Todo o movimento realizado era quase uma aula de tai chi chuan, tudo muito devagar, controlando respiração, andar etc.

Apesar da biopsia, de discutir com Deus, apesar do corte, da peça retirada medindo cerca de 20cm de diâmetro, apesar da remoção de um ovário e de uma trompa, apesar do medo e das incertezas, eu não pude deixar de reconhecer que alguém lá em cima gostava bastante de mim. Eu tinha tido uma segunda chance. 

Onze anos depois fica fácil contar a história, até porque muitas das questões (científicas, claro) já foram respondidas. Difícil é vestir um biquíni ou afirmar que eu me acostumei com tal marca. Não gosto de vê-la, embora eu saiba que o que havia antes dela era pior. Por isso prefiro da forma que está: caso enfrentado, superado e curado. Por ser um tumor do tipo boderline, a malignidade existe e é constatada, mas é baixa.

Não só sobrevivi sem a necessidade de quimioterapia, como pude ter a certeza de que somos capazes de enfrentar aquilo que julgamos ser o pior. Claro que cada um tem o seu segredo. O meu? Família, fé, amigos, sorte e a mãozinha de alguém lá de cima. Você já teve uma segunda chance?

Há dois anos participei de uma matéria sobre câncer de ovário publicada na revista Claudia. Vale a pena conferir e ficar atenta aos sintomas. Para acessar clique aqui

Made in Sergipe

O bom em mudar de área profissional traz não só as descobertas do mundo completamente novo como certos benefícios. No meu caso, cultural. Em pouquíssimo tempo já fui à peça do Fagundes, ao show da Maria Rita, à pré-estreias de ótimos filmes, como a do “Salve Geral”, e já trabalhei com os galãs de algumas novelas das oito. Um deles trocou a maior ideia comigo sobre a minha tatoo (Are Baba!) e o outro me fez ter pensamentos sujos por conta de uma conversa sobre beijo técnico.    

Teve gente que apostou que eu estaria arranhando a minha carreira, mas teve muita gente que não só me encorajou, como vibrou e torceu pelo meu sucesso. Como estou há apenas pouco mais de 40 dias, tudo ainda é muito legal, engraçado, divertido e extremamente rico. Estou tendo aulas deliciosas sobre a sétima arte e a importância dos festivais e das mostras de cinema, graças à Fabiana, garota que conheci há quase oito anos. 

Olho-a atualmente e vejo o trator que ela se transformou. Aquela rapariga-sergipana-de-fala-rápida que conheci lá trás continua a mesma e ao mesmo tempo mudou tanto! Está repaginada, segura, independente e mais apaixonada pela vida. Contagia tanto que às vezes perdemos o fôlego. De rir, de chorar e de rir e chorar ao mesmo tempo. 

Fomos uma dupla-guerreira durante três anos em um lugar que estava mais para inferno do que para uma agência. A responsável por isso era uma carioca que desestruturou a italiana aqui e a mocinha made in Sergipe.  Mas uma coisa é certa: a louca do Rio de Janeiro nos uniu. Depois de um café numa livraria recheado de conversas densas e perturbadas a gente nunca mais se largou e desde então somos irmãs. 

No dia 10 de setembro eu postei um texto aqui sobre o meu amigo Bil e essa moça quase me matou! Me ligou na hora blasfemando: morte ao Bil! Morte ao Bil!!!

Doida essa daí! E eu que não sou abestada resolvi escrever esse texto antes que ela sacasse a peixeira!

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Fabi, eu e Camis (outra doida-guerreira – encontrada sob os escombros dos atentados terroristas da carioca-louca – que vai me xingar dizendo que eu ainda não escrevi nada sobre nossa amizade, principalmente porque é leitora e comentarista assídua deste blog. Amiguinha, amo-te também!)

 

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P.S. A maioria dos amigos da Fabi se chocou com o termo “rapariga”. Não é de se estranhar, afinal o termo por mim usado – na maior ingenuidade – tem um significado pra lá de pejorativo. Algo como “mulher da vida”. Juro, juro que eu imaginava que o termo era algo como guria é em Porto Alegre, ragazza é na Itália e rapariga é em Portugal. Eu tenho prova de que muita gente quis me matar. Amigos dela escreveram falando em jagunços do sertão e “a peixeira vai rolar”. Medoooooo. Será que eles acreditariam que a minha intenção foi a melhor das melhores?

Eu sempre cultivei um carinho especial pelo mês de outubro. Quando criança, por motivos óbvios, eu esperava ansiosamente pelo dia 12. Esta data era especial e os meus pais a tornavam mais especial ainda, fazendo com que eu e os meus irmãos a valorizasse verdadeiramente. Claro que eles podiam nos dar certos presentes a qualquer momento. Mas, espertos, diziam que ganharíamos certos regalos se fôssemos bons alunos na escola e se também fôssemos obedientes. Era a regra básica. Dessa forma, crescemos entendendo que as coisas não caem do céu, que há momento certo para tudo e que tínhamos de merecer.

Um dos presentes de que mais gostei foi um carrinho de supermercado vermelho, com rodas amarelas. Lembro que coloquei o urso da Avon na cadeirinha do carrinho e fiquei andando com ele pra cima e pra baixo, pegando latas de azeite e macarrão do armário da cozinha, fingindo ser uma dona de casa perfeita. Não tenho a menor idéia de quantos anos eu tinha, mas eu jamais esqueci. O macarrã continua fazendo parte da lista de compras, grazie a Dio! 

É também em outubro que se comemora o Dia de São Cosme e Damião. E é nesta data que a Casé envia um mimo para os Very Important People, e eu -  rá! – estou nesse mailing VIP, minha gente! Desculpem, mas a criança mimada e metida que sou não podia deixar de se deslumbrar com tal fato.  Dois cupcakes estupidamente deliciosos, feitos pelo chef francês Nicolas Saretto, estavam acondicionados em uma embalagem incrivelmente linda, que obviamente guardei com carinho.

Mas é em outubro que eu também comemoro uma das datas mais significativas: o meu casamento. Segundo Fernanda Guerra, uma das minhas amigas mais queridas, tal evento foi algo tipicamente Almodóvar. Primeiro porque ocorreu duas vezes e com a mesma pessoa: uma no civil e outra, dois anos mais tarde, na igreja. O fato é que, depois da cerimônia religiosa, comemoramos o evento no Grazie a Dio. Vamos combinar, pessoal, que não é todo dia que se vê alguém chegando em um barzinho vestida de noiva e trocando tal traje por outro mais casual em um banheiro minúsculo. Sem contar que, todos – sem exceção – disseram que foi o noivo que roubou a cena (e roubou mesmo, emocionando todo mundo). Sem contar que, ao contrário de muitas noivas que entram com os olhos marejados ou chorando, eu entrei rachando o bico, tamanha era a minha felicidade.

Sem contar que eu esqueci de ir à manicure, sem contar que o moço que filmou não conseguiu dar nenhum close no casal, porque a noiva mede menos de 1 metro e meio e o noivo tem 1 metro e 90, sem contar que o buffet que havíamos contratado faliu antes do evento acontecer, e sem contar que…bom, é uma lista imensa. Almodóvar, favor entrar em contato comigo. Eu conto tudo, com detalhes, para a sua próxima produção.

Eu pretendo me casar de novo com a mesma pessoa. Tá, eu sei, é renovação de votos. Seja o que for. Dessa vez, quero a festa que a gente não teve, com direito a chuva de papel e aqueles clipes que contam a história do casal por meio de fotos. Bom melhor não, porque contar 11 anos vai tomar um certo tempo da festa…tá, prometo fazer um clipe bem bacana de cinco minutos. Vou pedir o meu marido em casamento e já volto. Se ele disser que prefere um churrasco, eu arrebento a cara dele e arrumo outro marido!

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Não deu mesmo para fazer um close do casal…

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A embalagem dos cupcakes não é linda?

Ela quis fazer com que você soubesse de tudo naquele curtíssimo tempo que tinham. Quis contar e ouvir todas as suas histórias. Ao menos, muita coisa. Era quase um desespero para se fazer conhecer e te conhecer. Era um desespero de querer recuperar todos aqueles anos que  distanciaram ela de você e vice e versa. 

Aí quando ela se deu conta do que sentia, preferiu não dizer, porque já tinha desembestado a falar tanta coisa que achou que você iria pensar que aquela seria apenas uma frase momentânea, solta, tola. Não era.  Tola foi ela que não falou, porque se iludiu acreditando que haveria o momento certo. 

Mas o momento era aquele. Ela, mais uma vez, esperou e perdeu. Assim como havia feito anos antes. O momento passou. Foi isso que aconteceu. Vocês deixaram passar todos os momentos. Por razões diversas e tolas. 

Hoje, apenas um desses personagens foi, ou parece estar, bem determinado a não esperar por nenhum momento. Para ele, o momento passou e a história foi resumida a uma passagem desastrosa. Pena.

Hoje, se para ela nada disso passou , se a história é resumida de uma forma completamente diferente da versão dele, ou ainda,  se ela sente ou vive da forma que vive só há uma explicação. Explicação dada pelo personagem de Woody Allen em “Crimes e Pecados” que diz: “Somos a soma das nossas decisões”. 

Plagiando o moço da TV, Pedro Bial, a gente é o que a gente escolhe ser, o destino pouco tem a ver com isso.

A primeira cólica renal que tive foi há mais de dez anos e foi, assim como o primeiro soutien, algo inesquecível. Pra começar, eu demorei a entender que certos sinais eram os sintomas de uma cólica renal. Primeiro achei que fosse cólica menstrual, depois eu tive ânsia e depois, indo em direção à Rebouças, eu virei a letra “U”.

Lá mesmo, na calçada, não havia sujeito algum que me endireitasse ou conseguisse me carregar. Eu achei que estivesse tendo um ataque epilético, mas a minha língua tava lá, na dela, tranquilinha. Mas aí, com as fortes pontadas, tive a certeza de que alguém espetava agulhas bem na região do rim em um bonequinho de pano. Eu tinha certeza que era vodú, coisa ruim! Até chegar no hospital e descobrir o que estava acontecendo, eu sofri paca.

De lá pra cá, eu devo ter tido umas seis ou sete crises como esta. Duas delas tive que sair do meu apartamento engatinhando até o elevador. Não quero nem saber o que o porteiro deve ter achado ao me ver, pelo circuito interno , de quatro e gemendo. Teria ele idéia de que aquilo estava longe de ser uma cena erótica?

A última cólica foi em junho. Foi a pior de todas por vários motivos: eu não estava em São Paulo, logo o hospital da cidade minúscula era um posto de saúde; e demoraram para me atender – mesmo a minha pressão indo abaixo de zero e a minha cor oscilando entre o verde e o azul pastel. A culpada disso tudo foi uma “pequena” pedra de 1 cm, que me fez urrar como um animal. A tal pedra, situada no canal, foi expelida de forma natural com muito sofrimento e antibióticos (que me ferraram a pele).

Os exames apontaram mais seis pedras localizadas no outro rim que, segundo o médico, podem se manifestar a qualquer momento. Hoje, a Lucélia – minha terapeuta e o meu norte nesta vida – revelou que o rim é o órgão do nosso corpo onde são acumuladas as tristezas e as questões mal resolvidas. As pedras são os obstáculos a serem vencidos. Portanto, há seis assuntos para eu resolver. Drummond foi sortudo. Tinha apenas uma pedra no meio de seu caminho. Duvido que um homem denso como ele tinha apenas uma questão mal resolvida, humpft!

Eu espero resolver isso tudo antes que eu vire um outro “U” ou fique de quatro novamente no elevador. Espero expelir certos obstáculos de forma natural e rápida, de preferência. Mas a Lucélia, do jeito que é vai me colocar no lugar rapidinho com as suas broncas, seus conselhos e os seus florais mágicos!

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
 

Carlos Drummond de Andrade

 

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Eu tinha 19 anos quando fiz a minha primeira viagem “pro estrangeiro”. O destino era Orlando, a cidade que abriga o mundo fabuloso da Disney. Eu estava tão ansiosa em “andar de avião” que, ao adentrar no possante, lembro-me que pensei: eu nem preciso ir mais à Disney. Viajar de avião vai valer por tudo!

É claro que tal pensamento se tornou menor do que já é quando me deparei com aquele universo – que foge de todo o tipo de imaginação que se possa ter. É um mundo à parte, definitivamente. Eu não fugi do óbvio e chorei na noite dos fogos ao som de when you wish a upon star e corri, sim, atrás do Pateta para tirar uma foto e pedir um autógrafo. Era ele sim, juro!

No alto dos meus 19 anos, eu me diverti como uma criança ensandecida de no máximo 8 anos ao lado da minha irmã, que me convenceu de ir à terra da fantasia após a sua ida um ano antes. Fiquei louca, louca, na xícara da Alice, na atração da Pequena Sereia e amei com toda a força do meu coração todas as atrações da Universal, especialmente a do ”De volta para o futuro”. A viagem ao lado da Guna foi divertidíssima e eu a agradeço todos os dias por ela ter garantido que eu não só iria amar o lugar como iria desejar voltar todos os anos.

A volta para casa foi dolorida que só. Ri de mim mesma ao lembrar que eu nunca havia sequer sonhado em fazer aquela viagem, porque achava fútil, boba e infantil. Os americanos fazem coisas que eu muitas vezes contesto e reprovo, mas a Disney, meus caros, foi sim a melhor invenção deles e um dos melhores momentos da minha vida.

Foi há muito tempo, mas as lembranças latejam em mim mais do que deveriam. Voltaram com força total esta semana, com a vinda da Val querida que me trouxe uma lembrancinha tipicamente linda de lá e a minha encomenda: o meu querido iPod. Essa pequena revolução tem tomado o meu tempo com tantas funções e com tamanha capacidade: mais de oito mil músicas podem ser armazenadas naquele aparelhinho que cabe na palma da minha mão.

A seleção de músicas já tem sido feita e armazenada. Além de João Bosco, Elis Regina e Oswaldão, inseri – sem medo de ser feliz, o tema da Disney. Só para reviver aquilo tudo e ter a mesma sensação vivida há 15 anos -, tempo que levarei para armazenar tudo o que eu quero ouvir.

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Eu com 19 anos, espírito de 8, na Disney – onde eu, muito em breve, hei de voltar.
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Há muita gente que contesta, mas eu a-do-ro o programa Irritando Fernanda Young,  especialmente a apresentadora. Gosto da Fernanda, de sua linguagem, das crônicas que ela escrevia em uma revista mensal, do humor ácido, sarcástico e negro que ela e seu marido, Alexandre Machado, inserem nos roteiros de Os Normais. Declaro, portanto, que gosto dela e pronto.

Em sua última entrevista, a convidada e o papo me intrigaram. “Casamento de verdade é aquele com papéis assinados, conta bancária conjunta e móveis comprados pelo casal”, dizia a entrevistada. Na hora, tudo o que pensei foi           “FO-DEU! O meu casamento é uma farsa!”. Com exceção dos papéis assinados, não tenho uma conta-conjunta com o Frango e todos os móveis que entraram aqui foi um ou outro quem comprou. Tanto que ele teve um troço quando se deparou com a minha poltrona querida e predileta. Ainda mais porque liguei para ele e pedi para que me buscasse na agência por conta de “uma coisinha” que eu havia comprado. Mas vou abafar o caso, porque essa história dá um livro.

O Oscar ficou por conta da penteadeira recém adquirida. Eu jamais desejei tal artefato, mas rolou uma química entre nós desde o primeiro momento. Ela ia ser doada e lembro-me que pensei na hora: “você acaba de ganhar um lar, queridona!” O plano de convencimento foi digno de outro Oscar. Todos os dramas foram feitos pelo Sr. Frango e uma das frases foi: se a penteadeira entrar, você sai!

O quarto era o único lugar que o tal móvel poderia ficar, onde até então só havia a cama imensa e os dois criados mudos. Enquanto ela era restaurada por Paulo Flores, o mocinho que deu um toque final no móvel, eu ouvia: “onde você vai enfiar aquela jabiraca, dona Paola Del Monaco?!” E a cada dia eu empurrava um pouquinho a cama para ganhar espaço ao meu lado. Cinco dias depois ele esbravejou: você pensa que eu não tenho percebido que o meu lado livre tem diminuído, dona Paola Del Monaco?

Para encurtar a história: a penteadeira chegou, o Sr. Frango ficou com 60 cm de espaço livre para circular e ele acabou gostando da penteadeira ao se deparar com um espelho em nosso quarto. Enquanto eu contemplava toda bobona o móvel estilo provençal, o Sr. Frango alimentava pensamentos sujos devido ao espelho.

Por isso, creio que casamento verdadeiro seja aquele em que cada um mantém um ponto de vista ( harmônico, óbvio)  mesmo que seja diferente um do outro. Talvez a fórmula para um casamento verdadeiro seja, portanto, a soma do bom humor + tolerância + sexo, claro!

DSC00532Essa poltrona aí foi o motivo do primeiro troço que o Frango teve…Mas não é linda?
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A penteadeira foi mais difícil convencer. Mas nada como a forma de pensar do homem: ele pensa com a cabeça do seu amigo pênis, não tem jeito, e no meu caso foi melhor pra mim, para a pentedeira e para ele.

Pérolas do Frango

Da série “Pérolas do Frango”, o meu excelentíssimo marido:

eu: amor, tô no supermercado. Quer alguma coisa?

marido: hum…traz a gostosinha do caixa número 6 (!)

Primeira semana em escola nova ou trabalho novo traz sempre uma das sensações mais incômodas: o medo dos olhares de quem não te conhece.

Não é o meu caso. Comecei há poucos dias em uma área completamente nova, longe do mundo corporativo, e no meu primeiro dia descobri que há um colega que fica ao meu lado direito que é simplesmente o máximo. Logo de cara nos demos bem, porque ele me recepcionou com um sorriso cravado no rosto.

O engraçado foi que assim que batemos o olho um no outro tivemos a mesma certeza: a gente se conhece, e é de longa data. A gente brincou a beça quando eu ia passar as férias em Águas de S.Pedro e também na casa dos meus primos. Eu e o meu irmão também brincávamos com ele em casa.

Não me lembro, mas acho que a gente se distanciou quando eu tinha uns 13 anos ou talvez menos… Fui lembrar dele somente na faculdade, porque os meus amigos achavam que eu tinha uma certa semelhança com essa figura. Na época os meus cabelos lembravam bastante os dele. Como ele tem uma particularidade nas mãos, o pessoal pedia para eu imitá-lo e eu, claro, ficava brava.

E depois de tanto tempo, quem diria? Somos amigos de trabalho e compartilhamos idéias geniais. É bem verdade que eu me intrigo um pouco com o fato de o cara manter aquela cara risonha o tempo inteiro, mas eu prefiro assim. Ele deixa o dia mais leve e faz com que eu comece a minha rotina com a mesma sensação que eu tinha em Águas de S.Pedro ou na casa dos meus primos: a de que estamos sempre nos divertindo.

Abaixo apresento o meu novo e velho amigo Playmobil, a quem chamo carinhosamente, e com a maior intimidade do mundo, de Bil.

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El bigodón

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Antes de o Fantástico transmitir a reportagem sobre o seu paradeiro, meu caro rapaz-latino-americano-sem-dinheiro-no-banco, muito se especulou. Todas as pistas, a maioria incontestável, foram divulgadas. Confesso que ri muito quando este site aqui destacou uma foto afirmando ser o seu bigode sobrevoando o Sertão do Cariri. Alguns disseram que você estava na ilha de lost, como mostra essa foto, assim como afirmaram que você havia ido para este lugar (!)

Grandes desafios foram lançados, como mostra essa ilustração, e o seu rosto também aparece na capa do álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles. Um jornal de Pernambuco lançou campanha e tudo, publicando na capa de uma de suas edições “A gente paga uma cerveja para quem achar o Belchior”. Ainda bem que não colaram sua foto em um grande cartaz com o famigerado “Procura-se: Vivo ou Morto”. Pois é, durante muitos dias o Brasil não cansou de perguntar “cadê o Belchior” e, juro, até o britânico The Guardian se juntou ao coro.

Gosto de suas composições, especialmente “como os nossos pais” e mesmo aquelas que muita gente tira sarro dizendo que suas interpretações são feitas de maneira atropelada, que você encaixa milhares de sílabas em um único arranjo. Nem aí pra eles, ó!

Minha admiração por você, meu caro, aumentou quando você disse, com muita maestria e simplicidade, que não aceitava falar sobre o que considera de caráter privado. Sensacional.

Eu não conheço uma viva alma que goste de ir a supermercados. Bastante compreensível, porque todos os contras que se possa imaginar estão lá. Eu mesma odeio, principalmente aqueles do tipo hipermercado, com milhares de gôndolas. Aqui na Mooca, pertíssimo de casa, tem um mercado do jeito que eu gosto: com no máximo oito corredores, preços nada exorbitantes, boa variedade de produtos e funcionários educados.

Mas hoje, após séculos sem pisar em um hipermercado, tive a infelicidade de dar uma passadinha em um daqueles da grande rede do Sêo Abílio Diniz, que fica dentro de um shopping. Achei que não seria tão mal, até porque eu estava lá mesmo e precisava comprar dois itens. Ao chegar, tive de entregar duas sacolas para o empacotador enfiar tudo em um saco plástico e lacrá-lo, como se eu fosse uma das maiores bandidas do país. Adentrei no recinto sem pegar carrinho algum, porque eu só precisava de dois itens. Pois bem, os dois itens viraram 17 produtos.

Isso porque eu pirei na seção de cama, mesa e banho. As toalhas de banho estavam em uma promoção do tipo “fabulosa” e eu não queria perder a chance. Me joguei na liquidação e quase pirei com tudo aquilo. Peguei seis delas (todas as cores “ornando” entre si, claro!)

De lá foi um pulo para ir à seção “banho e afins”, DVDs, plantas, bomboniere e…porra, até pneus eu vi. Não me pergunte, mas eu fui à gôndola dos pneus. Isso tudo segurando toalhas, shampoo, alguns doces e os meus sapatos recém-adquiridos acondicionados dentro daquele saco plástico medonho e lacrado. Sei lá o que eu parecia. No momento em que o celular tocou, eu tive que sentar em um cantinho e amontoar tudo. RI – DÍ –CU – LA. Simples assim. Ainda bem que eu não comprei os pneus.

Na hora em que eu tive de ir atrás dos dois únicos itens que faziam parte do plano inicial, eu já estava exausta, pedindo uma trégua,um carrinho e patins. Os produtos que eu precisava estavam no extremo norte do supermercado, a 689 léguas de onde eu estava. Tinham, no mínimo, 289 gôndolas para percorrer. Quis chamar a minha mãe ou deixar tudo lá, naquele canto mesmo e sair sem levar nada. Mas fui determinada e cheguei ao meu objetivo, toda esbaforida e prometendo nunca mais voltar em um lugar como aquele. As filas eram imensas, as minhas pernas estavam doloridas e a mocinha do caixa era bem maleducada. Pelo menos as toalhas são o máximo.

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Uau! esse aí aproveitou uma mega liquidação de pneus!

Enfrento contradições, medos e sofrimentos típicos de quem nunca soube lidar com despedidas e muito menos saudade. Lembrar de certas pessoas e me despedir de algumas delas só não é mais doloroso porque irei levá-las para a minha vida toda. Levo no coração, na alma e nas eternas lembranças. E são eternas como o tempo, assim como escreveu Vinícius na última frase de sua “Poética”: o meu tempo é quando. Frase que representa tudo aquilo que é eterno, independente da época ou do lugar vivido, e muito menos por quanto tempo viveu, porque certas pessoas e situações marcam para sempre.

Se “o meu tempo é quando” representa o eterno, então não há outra maneira para traduzir exatamente o que sinto em relação a tudo o que determinadas pessoas causaram em minha vida. Espero que tenham se dado conta. Depois de tudo o que fizeram, eu nunca mais fui a mesma. Ainda bem.

Obrigada por terem despertado em mim tudo o que sou ou passei a ser.

Amo vocês.

julho 09 201

A frase, tatuada ontem, foi dita há muito tempo no elevador do prédio da Av. Angélica por uma das pessoas mais encantadoras que já conheci. Na ocasião eu não tinha a mais vaga idéia do quanto tal frase poderia significar. Hoje, mais do que a melhor tradução, é a minha declaração e o meu eterno agradecimento.

julho 09 198

Ela não esperava receber flores, nada disso. Mas jamais imaginaria que não haveria sinal algum, em tempo algum. 

Mesmo depois de tanto tempo ela ainda não sabe o que fazer com todas as coisas que ela quer te contar e, principalmente, com tudo aquilo que sente por você. Sem contar com as coisas que ela quer saber de você. Ouvir, se possível.

Ela não entende como pode sentir tanto a sua falta e se ilude para seguir em frente, porque muitas vezes as lembranças não são suficientes como parecem ser em algumas vezes. Se o encontrasse, se recebesse alguma carta, se ouvisse sua voz agora mesmo e você perguntasse “Como você está?”, acho que ela conseguiria apenas responder: sem saber de você há 17 meses.

Muitas vezes você está em todos os lugares e, acredite, em todas essas vezes ela o odeia por isso, porque não faz o menor sentido. São ilusões. E ela sabe muito bem o que as ilusões representam. Mas não entende porque você ainda se faz presente.

Ela não sabe se lhe falta coragem, mas se assusta por sobrar tanto silêncio.

Luz versus luz

de ilusão em ilusão
até a desilusão
é um passo sem solução
um abraço
um abismo
um
soluço
adeus a tudo que é bom
quem parece são não é
e os que não parecem são

Paulo Leminski

Tudo o que vi no filme “O carteiro e o poeta” foi simplicidade e delicadeza,  tudo o que eu mais precisava absorver. Não há como não se envolver com toda a ingenuidade doce do personagem e de suas descobertas despertadas pelo poeta Pablo Neruda. É encantador o diálogo entre os dois sobre o significado de metáforas. “…Quando tentamos explicar, a poesia se torna banal. Melhor do que qualquer explicação é a experiência das emoções que a poesia revela para uma alma disposta a compreendê-la”, disse o poeta ao carteiro. 

Prova disso é a cena em que Neruda pergunta ao carteiro, filho de pescador: Como são as redes de pesca? Tristes, ele responde. Só vendo o filme para entender o que de fato o carteiro quis dizer, porque a sua resposta é pura poesia e poesia não se explica.  

il postini

Proposta

O meu celular toca.

Sujeito: Tenho uma proposta para te fazer. 

Eu: é mesmo? Qual? 

Sujeito: sabe aquela lasanha que comprei para você? Estou morrendo de vontade. Que tal eu ficar com ela e você ficar com o meu cartão amanhã?

Eu: perfeito. Fechou! 

Sujeito: Put´s, ainda bem que vc. aceitou, porque eu já comi.

P.S. Agora substitua “sujeito” por “marido”. Preciso dizer mais alguma coisa?

Xeretar certos lugares do armário pode render surpresas. Encontrei uma caixa cheia de cartas, bilhetes e recordações que eu não tinha a menor idéia dos tesouros que escondi ali.

Um deles me fez reviver momentos particularmente especiais. Encontrei os diários que escrevi entre 1985 e 1987, período em que decidi eternizar os maiores segredos daquela garota que fui. E fiquei extremamente chocada ao tomar conhecimento sobre certas peculiaridades da dona Del Monaco aqui, na época com 10, 11 e 12 anos.

Claro que antes de me chocar, eu não imaginava o quanto eu seria presenteada com o ouro que eu mesma guardei naqueles caderninhos trancafiados por cadeados laterais. Claro que tive que arrebentá-los porque as chaves devem estar na mesma dimensão das minhas canetas bics e das minhas tupperwares.

Lá estavam os ingressos do Holiday on Ice, os papéis das matrículas feitas na escola de Teatro Opus-alguma-coisa e na escola de dança “Cleuza Marinho”, onde fiz jazz por causa dos filmes Dirty Dancing e Flashdance. Aliás, eu já falei sobre esse meu antigo objetivo de vida bem aqui. Também havia os convites dos bailinhos realizados na casa do William, um correio elegante que recebi do Serginho (um menino da rua de cima que eu era toda apaixonada), a letra de música da Bonnie Tyler, “Total eclipse of the heart”, penas dos passarinhos que minha mãe havia comprado (!), entre outras coisas assustadoras, como o mapa do tesouro que desenhei após ter visto Os Goonies. Além disso, encontrei o bilhete que o Alex escreveu me pedindo em namoro. É hilária e vale um texto, que prometo postar em breve.

Engraçado foi também o que escrevi sobre a Copa de 86. Eu descrevo toda a minha frustração sobre a derrota do Brasil e termino dizendo enfática: “Tive vontade de dar uma surra no Zico”.

Puxa, eu já tinha uma certa agressividade aos 12 anos, não? E era metida a ponto de opinar sobre futebol. Hã? E o discurso era tão hipócrita que, duas linhas depois, eu mudo completamente de assunto e digo que fui brincar na casa de não sei quem. Eu havia acabado de escrever que a derrota havia me deixado extremamente triste, para depois dizer que eu fui brincar???? Como assim?

O que mais me surpreendeu foi o texto em que eu confesso ter cabulado aula de inglês. Eu começo a dizer que eu fiz algo muito, muito feio naquele dia, algo que eu nunca havia imaginado fazer.  Porém, a mocinha com 12 anos justifica-se da seguinte forma: “tive que cabular. Eu não fiz a lição do inglês. A professora ia me esganar!”. E atenção, senhoras e senhores, para onde dona Paola Del Monaco foi? Hã? Hã? Hã?  

“…Diário, fiquei com tanto medo….fui para a Biblioteca Municipal…”. Oi?

Agora digam se a loser aqui não é uma loser?

Bicho, tanto lugar em que a galera costuma ir quando cabula. Por que eu não fui ao cinema? Para o parque? Para o shopping?

Por que eu fui à Biblioteca, Santo Deus?

É numa dinâmica de contradições insanas e vontades discordantes que os meus dias se dispõem.

Difícil.

E a semana mal começou.

Queridos mocinhos que nos paqueram no trânsito do jeito mais cretino que existe,

Eu tento imaginar o que teria ocorrido com vocês durante a infância. Aposto que foi terrível, não? Vamos, não fiquem com medo, não vou fazer nada, juro. ATÉ PORQUE EU NÃO ANOTEI A PLACA DE VOCÊS, SEUS CARAS DE MAMÃO! Pausa importante: tenho refletido bastante quanto à quantidade de palavrões que solto e, portanto, cara de mamão tem sido o meu favorito para algo do tipo: ~&*zão do @#!alho.

Bem, o fato é que o trânsito dessa cidade não é fácil pra ninguém, certo? Agora imagine o quanto não fica mais insuportável quando cruzamos com rapazes que olham para os nossos rostos e fazem aquele gesto demoníaco com a língua. Não, não é bacana, seus infelizes! Eu tive muita vontade de vomitar dentro do carro prata do rapazinho que fez isso hoje pra mim em plena 23 de maio. Aposto que ele deve ser aqueles idiotas que na hora do vamos ver querem mostrar serviço (quantidade). Sua besta-quadrada, nós mulheres não gostamos de homens que bancam o nelore puro reprodutor, humpft!

Você deve ser do tipo que chama uma mulher de doçura ou de princesa achando que está arrasando. Deve ter a unha do dedo mindinho enorme e ter orgulho dessa coisa nojenta que, para você, deve ser utilizada para coçar o ouvido. Você deve ser daqueles que daqueles que devem mastigar palito de dente e pausá-lo no canto da boca. Estou com muita vontade de bater em você, rapazinho do carro prata. Torça para eu não encontrá-lo. Torça para eu não andar com um maçarico no meu carro. E aprenda com o mocinho que outro dia deu uma piscada pra mim e um sorriso de canto. Esse aí, sim, soube arrancar um sorriso meu. E não foi um sorriso de canto. Rá! Atirem a primeira bolinha de gude quem se renderia a um gesto como esse.

Quem concorda em fazer algo igualzinho à cena abaixo aos mocinhos maleducados, põe o dedo aquiiiiiii, que já vai fechaaaaaaar! Quem não conseguir visualizar, clique aqui.

 

Debutante

Já faz tempo que fiz 15 anos, mas lembro o quanto eu fui chata em função de todos aqueles problemas existenciais e típicos dessa idade pentelha em que o normal é odiar a mãe. Eu tenho vontade de voltar nessa época só para dar umas bordoadas na minha cara e dizer: “como você é pedante, garotinha chaaaaata!”. Pior do que a vergonha de ter sido aquela adolescentezinha é o castigo de hoje: amargar saudades dolorosas da dona Idalina, que está na cidade do mar azul matando o tempo com caminhadas no calçadão, ao lado do Johnny-o-cão-mais-feliz-do-mundo.

Outro castigo: como a dona chata, sempre fiz pouco sobre o que falavam quanto à “vida teen”. Me diziam: “Aproveita! O tempo voa tão depressa que você nem vê!”. Dito e feito! Quando vi, 15 anos voaram e eu tava lá, com 30, casada, cheia das responsabilidades, contabilizando algumas conquistas e sustos.

Há 15 anos, eu então com 19, curtia a vida num parque de diversões, conversava com um poeta, ouvia Oswaldão e falava sobre livros. Foi com essa idade que despertei muito do que sou ou do que ainda sinto.  Faz tempo, mas certas épocas não parecem ter toda essa distância.  Amargo saudades e há muito não falo com o tal poeta que me ensinou, entre milhares de coisas, que o tempo nem sempre apaga aquilo que se julga ser passageiro. Se eu o encontrasse, eu faria a pergunta que a tonta da garota de 19 anos não fez: como driblar aquilo que o tempo não leva? E como não se assustar com fatos que permanecem presentes mesmo depois de 15 anos?

Trecho de “Lavoura Arcaica” – o livro da vez que trouxe algumas respostas  

“O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor. Embora, inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento. Sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza. Não tem começo, não tem fim…Rico não é o homem que coleciona e se pesa num amontoado de moedas, nem aquele devasso que estende as mãos e braços em terras largas. Rico só é o homem que aprendeu ,piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando atento ao seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não sua ira. O equilíbrio da vida está essencialmente neste bem supremo. E quem souber com acerto a quantidade de vagar com a de espera que deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é. Aquele que exorbita no uso do tempo dá a justa natureza das coisas. Só a justa medida do tempo, dá a justa  natureza das coisas…”

(Raduan Nassar – o meu atual poeta)

1,2,3, testando!

Eu sempre gostei de testes. Não aqueles que medem o nível de seu conhecimento sobre determinado assunto, nada disso! Falo sobre aqueles testes do tipo bem tosqueiras. Claro que sei que existem alguns bem bacanas, mas a grande maioria dos testes sem-noção não possui uma metodologia nem um pouco científica, por isso tornam-se os testes mais divertidos do planeta.

Aqueles toscos de revistas femininas são ótimos exemplos, pois apontam o nível de sua futilidade, imbecilidade etc. Sim, porque convenhamos, vá? “Veja se ele está a fim de você” e “você é uma amiga confiável?” é o tipo de coisa que, quem se sujeita a responder, merece ler no resultado algo como “tu é mesmo uma besta quadrada que jamais vai conquistar alguém, já que tem dúvida se é confiável como amiga”.

Outros, embora não sirvam para absolutamente nada, nem como passatempo, valem pelo simples fato de serem verdadeiramente ridículos. Se você acha mesmo que já viu de tudo nessa vida, aposto que jamais imaginou haver o teste do canibal. Isso mesmo! Clicando aqui, você é direcionado à página que lhe dirá qual seria o seu sabor, caso algum canibal te comesse. Revolucionário, não? Pode ou não mudar a sua vida? Confesso que não fiz o teste, mas pelo porre de batida que tomei ontem, sem dúvida estou com gosto de guarda-chuva.

Outro teste absurdo é o sobre a sanidade. Quando terminei, o resultado foi “o tempo dirá se você vai pirar ou não”. Rá! Eu já pirei há muito tempo, queridão! O pior não foi o resultado, e sim as perguntas. A primeira já questiona se você se considera meio doido ou não. Mas a mais instigante é a que traz as opções sobre a morte do cachorro do vizinho. Olha, só clicando aqui para entender exatamente o que estou dizendo. O teste diz que pessoas com mente saudável alcançam 25 pontos. Claro que eu ultrapassei e fechei o tal do teste com 35 pontos.

O teste mais bacana foi o que recebi na sexta-feira. “Se você fosse um livro nacional, qual livro seria? Um best-seller ultrapopular ou um relato intimista?”. Não sei quais são as opções de livros, mas eu gostei do resultado do meu: “Antologia poética”, de Carlos Drummond de Andrade – O primeiro amor passou / O segundo amor passou / O terceiro amor passou / Mas o coração continua”. Estes versos tocam você, pois você também observa a vida poeticamente. E não são só os sentimentos que te inspiram. Pequenas experiências do cotidiano – aquela moça que passa correndo com o buquê de flores, o vizinho que cantarola ao buscar o jornal na porta – emocionam você. Seu olhar é doce, mas também perspicaz. “Antologia poética” (1962), de Drummond, um dos nossos grandes poetas, também reúne essas qualidades. Seus poemas são singelos e sagazes ao mesmo tempo, provando que não é preciso ser duro para entender as sutilezas do cotidiano.

Ou seja, tenho gosto de guarda-chuva e sou quase insana, porém observo a vida poeticamente. O meu olhar é doce, mas também perspicaz. Óia! rsrs         Para saber qual livro você seria, clique aqui

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Eu rezo por eles

‘Porque eu acho que cuidar de crianças é uma coisa que relaaaaaxa a gente”

Para assistir ao vídeo abaixo, clique aqui

Querida irmã Selma:

Tive o prazer de conhecê-la há alguns anos. Eu e o meu excelentíssimo esposo comemorávamos o primeiro aniversário de nosso casamento. Fomos até ti pedir a tua benção, conforme muitos fiéis assim nos recomendaram. Saibas que, desde então, passei a fazer parte da legião de seguidores teus.
Confesso que o tom de sua voz não é das mais acalentadoras, mas logo percebi que isso significa firmeza, convicção e poder de persuasão. Tu és, sem dúvida, a salvação, a sabedoria em pessoa. Suas palavras entram direto em nossos corações.

Com você pude sentir que é muito fácil conseguir aquilo que mais desejamos. Você, minha querida irmã Selma, demonstra o que devemos fazer e quais atitudes devemos tomar com bastante simplicidade. A fórmula é basicamente esta:

1. Dizer, entre dentes, o que mais se deseja. “eu quero muito ter um orfanato”. Puxa, é contagiante o jeito que você diz! Incentiva tanto!
2. Entre dentes também, devemos ressaltar as palavras positivas: “Porque eu acho que cuidar de crianças é uma coisa que relaaaaaaxa a gente”.
3. E finalmente ter fé. Muita fé. Uma fé tamanha a ponto de tudo acontecer.

Portanto, irmã querida, quero agradeça-la por tudo o que me ensinou. Preciso evoluir muito ainda, colocar em prática certas entonações, destacar determinadas palavras e falar mais entre dentes. Creio que só conquistarei os meus objetivos com fé e o apoio de quem estiver a minha volta, assim como suas colegas no convento. Espero escrever em breve contando detalhadamente os resultados de minha fé. No momento, rezo pelos funcionários do cartório que fui há pouco tempo. São tão simpáticos, que dá gosto de rezar por eles!

Abs.,

Paola Del Monaco

Não é de hoje que propagandas publicitárias me hipnotizam. Adoro e me divirto com a maioria delas. Gosto, por exemplo, daquelas de margarina, em que uma família feliz toma café junto, brinca com o cachorro e acha graça quando um rouba o pão do outro. Tudo ao som de Oh Happy Day. O mais louco disso tudo é que eu  nunca soube de alguém que acharia graça se algum fulano roubasse o seu pedaço de pão durante a primeira refeição do dia. Para mim seria motivo de um sopapo no meio das idéias. Mas, o intuito dos reclames é mesmo, na maioria dos casos, divertir, iludir e vender (não necessariamente nessa ordem).

 

Difícil gostar de todas, mas difícil mesmo é conseguir não zapear alucinadamente quando se tem 1765 canais. Em dias de preguiça extrema é fácil não mover um músculo e, assim, assistir a tudo em um único canal. Sorte a nossa quando somos presenteados por propagandas que se tornam inesquecíveis.

 

Eu coleciono uma infinidade de comerciais e jingles que nunca mais saíram da minha cabeça. Dentre as mais manjadas, cito as do Mappin, da Caloi, da Estrela, da Faber Castell, do Cornetto e a da pipoca-e-guaraná-que-programa-legal-só-eu-e-você-que-sede-que-dáááá!. Mas outro dia, uma propaganda, que tinha tudo para ser algo apenas para vender um produto, chamou, E MUITO, a minha atenção. Não, não havia nenhum golden retriever correndo no gramado de uma família feliz, nem uma música encantadora dando asas à imaginação de alguém com lápis de cor na mão. Foi uma piscadela de um sujeito muito do charmoso, que me fez guardar para sempre a palavra Wise up.

 

O mocinho ganhou lugar na minha lista dos dez “objetos” da TV mais desejados. Isso tudo por conta de uma piscadela. Sim, senhores leitores, uma piscadela. Porém, A PSICADELA. A piscadela final passou toda a credibilidade da escola de idiomas, construiu a imagem da instituição e…Tá, não foi nada disso. Hum. Mas, no vídeo abaixo, ou clicando aqui, repare bem na piscadela que esse moço dá, no finalzinho da propaganda. Ele desconcerta qualquer uma, mesmo sendo magrelo-mirradinho daquele jeito.

 

A minha lista tem de todos os tipos. Do galã que dispensa qualquer justificativa (George Cloone, irreversível da lista top ten), passando por um que tem cara de cachorro abandonado (Caco Ciocler), outro que não vale um centavo (Mel Gibson) e outro que você não sabe o que te atrai mais: o lado rústico, de “homem-mau”, ou o jeito de “o genro que sua mãe pediu a Deus” (Gerard Butler). Bem, eu não sei se o que a minha mãe iria achar de um cara que fizesse striptease para mim desse jeito. Mas eu queria o Gerard fazendo isso para mim. rá! (clique aqui e veja a cena do striptease). Êh, lá em casa!

 

 

 

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>Mãe, eu quero um desse. Compra pra mim?

Eu não queria entrar lá, porque aquele estabelecimento comercial é cheio daquelas mocinhas simpáticas que mal esperam você entrar. Logo te enlaçam, como se você fosse um boi muito do valioso, e se apresentam tentando disfarçar aquela euforia típica de quem ganha por comissão. “Oi, eu sou a Bruna. Posso te ajudar? Procurando algo específico? Vestido? Blusinha? Jeans? Fique à vontade, mas se precisar de qualquer ajuda, o meu nome é Bruna”. A primeira e a última frase têm uma entonação tão forte que é impossível esquecer o nome da vendedora.

Arghhh!!! Odeio todas elas. Coitadas, eu sei que a culpa não é delas, mas esse tipo de abordagem me deixa irritantemente perturbada. Eu queria muito conhecer o maldito gerente que acredita que isso realmente funciona. E quando elas te chamam de amiga? Quero bater em todas. Socar uma por uma. E berrar como se eu fosse um Alien: eu não te conheço e não estou aqui para fazer amizade!!

O fato é que na vitrine da porcaria desse estabelecimento havia uma das blusas mais lindas dessa vida. Gola vitoriana e um laçarote que faz toda a diferença. O problema não era nem o preço, e sim a tal da Bruna, da Suzete ou sei lá quem é que iria me laçar lá dentro. Antes de entrar e enfrentar a tortura, fiz a pergunta que as revistas nos ensinam: “eu preciso realmente disso?”. A BLUSA É LINDA!!!, gritava o meu lado compulsivo-louco-intempestivo. Sendo assim, respirei, fechei os olhos e me joguei naquela armadilha.

A garota que me atendeu usava uma sombra azul nos olhos de maneira beeeemmmmm carregada e tinha uma sobrancelha beeeemmmmm fininha, estilo anos 20. Foi mais rápida que a loirinha do cabelo esticado. Lançou a corda invisível em direção ao meu pescoço e deu três passos-alados, colocando-se em minha frente após derrubar todos os seus inimigos (outras vendedoras). Previsivelmente disse o seu nome e perguntou se poderia ajudar, blá, blá, blá.

Foi duro convencê-la de que eu queria somente aquela blusa. O desespero dela era tamanho que ela jurava que eu iria ficar ótima em uma blusa estampada de oncinha. Eu desejei desdenhar produzindo um sonoro “pfffffff”, mas consegui me conter. Os meus pensamentos obviamente foram “Oi?” “Hã?” “brigada, benhê, mas hoje não”. Porém, decidi responder educadamente que eu só estava interessada naquela blusa.

Saí de lá com aquela estranha sensação de felicidade. Sim, é fútil, mas li recentemente que fazer compras aumenta a produção de serotonina, substância “mágica” que melhora o humor. Aviso a quem adora condenar: estou bem longe de ser uma mulher compulsiva. Controlo, sim, os meus gastos e tenho como lema: “cartão de crédito é a imagem da besta”!

Portanto, nem venham com o velho papo de que a atividade física também aumenta a produção de serotonina. A blusa é linda, juro! E comprá-la foi infinitamente mais divertido e prazeroso do que 40 minutos na esteira.

Palavras mágicas que melhoram o humor de qualquer mulher:

liquidac3a7c3a3o

sale

O meu cabelo cresceu demais. Acabou a pasta de dente. Eu engordei (muito!). Há uma espinha no meu queixo e duas bolhas no mesmo pé. No estacionamento da fábrica, os borrachudos comeram metade da minha perna. As plantas morreram. Esqueci de programar o pagamento do cartão, do gás, do celular e do condomínio. Um dos meus copos preferidos quebrou. Já rolou o evento com o “homi du pudê”, companheiros. A Sofia fez um ano. O primeiro dente da Roberta caiu. A Giu ta com cara de quem está apaixonada. A Marina me deu um desenho e assinou com a inicial de seu nome. O taxista que me pegou no aeroporto não parava de falar. A missa demorou demais. O móvel novo chegará sábado. O silêncio característico e eterno de uma certa pessoa é ensurdecedor. Eu completei a coleção, dona Bloom. O imposto aumento. A minha meia nova é linda. Ouvir Nana Caymmi no escuro é sensacional. Eu estou feliz. Eu estou triste. Eu estou cansada. Eu vou comprar mais uma meia, porque o Lula já foi e, além do mais, “resposta ao tempo”, da Nana, é irritantemente linda.

Nas últimas semanas mergulhei na complexidade das minhas escolhas. Tentei ignorar, olhar por um ângulo diferente, fazer o jogo do contente e também tocar, desenhando de forma racional e mecânica. Não me convenci.

Tenho priorizado o que eu menos quero, tenho dado atenção a coisas que não têm a menor importância e curtido o que há de mais verdadeiro nesta vida com uma freqüência cada vez menor. Saudade de pai, mãe, irmãos, sobrinhas, cachorro. Saudade de fazer coisas banais, sem pressa, como cortar a unha do pé, sentada no chão, acompanhando a letra de uma música.

O mundinho bem imundo do ar condicionado tem tirado de mim tudo o que eu valorizo, prezo e quero. Desgasta, frustra, tira a espontaneidade, a graciosidade e, o pior, me afasta de tudo aquilo que acredito ou desejo.

Fase de contrariedade, de densidade superlativa.

Denso e vazio. É assim que está. E frio também.

Por favor, desliguem o ar condicionado.

Ela tem dessas coisas. No texto shame, dona Annita disse tudo aquilo que MUITA GENTE FAZ e ninguém tem coragem de admitir. “O cúmulo do ridículo é consultar oráculos para aplacar a ansiedade gerada por questões urgentes”. E não vem não, você aí do outro lado dessa tela, com frases de efeito, me mandando às favas e revirando os olhos enquanto sua mente grita “ah, vá, faz favor!”.

Eu tenho minhas urgências, oras, e é claro que leio horóscopo para…para…ah, sei lá…para alguma coisa, para buscar respostas, para me consolar…. Não me pergunte o quê, oras!
Sim, sou mulherzinha mesmo, do tipo que acredita/gosta de acreditar neste tal de zodíaco. Mas hoje não gostei nada, nada do que o cósmico conspirou. Veja só o que os astros prevêem para os súditos capricornianos: “Os tumultos são positivos, porque vão desarrumar o que precisa ser colocado em dia, num caminho diferente daquele em que as coisas e as pessoas tinham se acomodado. Sair desse estado de conforto é o melhor que pode acontecer”.

Ah, faz favor, sêu Quiroga! Isso lá é coisa que se escreve? Desarrumar o que precisa ser colocado em dia? Dizendo assim até parece que a vida aqui ta fácil, arrumadinha que só, humpft! Estado de conforto? Estado de conforto? Qual? Onde? Qual parte eu perdi? Onde é que eu estava quando isso rolou? Estado de conforto, uma grande ova! Aparece aqui e fala isso na minha cara para tu ver o que te acontece!

Porém confesso: nunca li algo tão verdadeiro quanto o texto abaixo. Não posso sequer contestar o que diz sobre capricornianos, poque acabei de chamar o sêu Quiroga para um fight. Aliás, a pessoa que escreveu isso aí não amenizou nem um pouco quando resumiu o meu ascendente (Áries). Tá achando engraçado? Aposto que o teu signo é escorpião.

Áries - ranzinzas e donos das manias mais estranhas

Touro – imaturos, molengas e cheios de frescura

Gêmeos - duas caras, muito cuidado com eles

Câncer - enrolados e, falemos a verdade, tremendos chatos

Leão - nervosinhos, estrelinhas, uns malas

Virgem - meigos na aparência, pentelhos na realidade

Libra - poços profundos e aborrecidos de indecisão

Escorpião - loucos, deviam ser todos internados

Sagitário – envolventes, porém maléficos, muito maléficos

Capricórnio - não há gente mais encrenqueira, pode procurar

Aquário – querem ser os diferentões, mas são uns bolhas

Peixes – vivem de ilusão e não têm vergonha na cara

Ela não é ninguém importante, apenas uma pessoa comum que leva uma vida comum, com pensamentos comuns e problemas comuns. Não terá uma estátua dedicada a ela, porém em um aspecto ela teve sucesso como poucos. Ela amou alguém de coração e alma, o que foi o bastante para ela tocar em frente.

Depois daquele dia, ela nunca mais dormiu como antes. Havia acabado. Mas todos os dias prometia que, se o futuro permitisse um encontro, ela iria sorrir alegre para ele.

Com o passar do tempo, ela aprendeu que o melhor amor é aquele que desperta a alma e nos faz querer mais. Aquele que acende algo no coração e traz paz à mente. E foi isso que ele deu a ela. E foi isso que a fez seguir.

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